
1. Quando somos crianças, criamos heróis.
2. Figuras que brilham como sóis.
3. Alguns vestem capas imaginárias.
4. Outros, apenas mãos frágeis e solidárias.
5. Na memória do mosaico-cristão há uma imagem viva,
6. Não de guerra, não de conquista altiva.
7. Mas de um quarto simples, de luz serena,
8. E de uma anciã de alma plena.
9. Seu nome perdeu-se nos corredores do tempo.
10. Mas sua presença permaneceu como fundamento.
11. Anginha — assim era chamada.
12. Anginha, pelo mosaico-cristão, era amada.
13. Se vinha de Angela ou de outro som,
14. O mosaico-cristão não conhece o tom.
15. Mas lembra-se do leito onde era recebido,
16. Sempre com sorriso acolhido.
17. Ele era criança, pequeno em estatura.
18. Ela, anciã — com resto de ternura.
19. Suas mãos traziam as marcas do tempo.
20. E ensinaram-lhe que a vida é como o vento.
21. Se as rugas de Anginha contavam sua história,
22. Sua simpatia permaneceu na memória.
23. Certo dia, farta de dias, ela descansou.
24. Mas não poucas vezes o abençoou.
25. E aquela bênção — invisível, singela —
26. Tornou-se pequena herança recebida dela.
27. E assim começa este memorial:
28. Não com reis, nem com glória marcial.
29. Mas com uma anciã em seu leito final,
30. E uma criança aprendendo o eterno no temporal.
31. Anginha marcou sua infância e sua memória,
32. E, por isso, sempre fará parte de sua história.
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