
1. Nem todos os irmãos nascem do mesmo sangue,
2. Alguns nascem do amor que o tempo distingue.
3. Quando o mosaico-cristão ainda era criança,
4. Joaquim surgiu em sua vida como presença e esperança.
5. Seu pai o acolheu e o chamou de filho,
6. E naquele lar encontrou abrigo e trilho.
7. Joaquim era alegre, sonhador e brincalhão,
8. E logo se tornou o grande irmão.
9. O sangue não corria igual em suas veias,
10. Mas o amor entre eles não conhecia cadeias.
11. Joaquim chegava gritando desde o portão,
12. Chamando com alegria: “Manão! Irmãozão!”
13. Gostava do riso, do trote e da brincadeira,
14. Era alma leve, espírito de verdadeira bandeira.
15. Jovem valente, de coragem no olhar,
16. Daqueles que não temem o que vier a enfrentar.
17. Mas veio um dia que mudou o destino da estação,
18. Era o início do oitavo mês na contagem da revelação.
19. O final do mês que muitos chamam de outubro,
20. E naquele tempo a família conheceu um luto duro.
21. Um tiro covarde, disparado pelas costas em plena luz do dia.
22. Ceifou a vida do irmão que lhe compartilhava alegria.
23. Joaquim caiu ainda cheio de energia e vigor,
24. E seu assassinato deixou na casa silêncio e dor.
25. Para o pai não era apenas um filho adotado,
26. Era um filho verdadeiro, profundamente amado.
27. E a perda de um filho que o coração abraça,
28. É uma dor que nenhuma vida disfarça.
29. A confiança do pai tornou-se fragilidade profunda,
30. Ferida que o tempo jamais circunda.
31. Talvez ao olhar o mosaico-cristão crescer,
32. E não ver a mesma valentia florescer,
33. Tenha sentido tristeza silenciosa no coração,
34. Ao lembrar do jovem valente que perdeu na escuridão.
35. E o mosaico-cristão perdeu seu irmão mais velho,
36. E com ele um pedaço de seu próprio espelho.
37. Desde então um medo silencioso nele nasceu,
38. O temor de perder aqueles que o coração escolheu.
39. Ainda assim Joaquim deixou sinais de sua existência,
40. Pequenos marcos vivos de sua presença.
41. Um pequeno jeep de três rodas ficou a lembrar,
42. Como brinquedo simples que insistia em falar.
43. Ficou também uma jaqueta escolar guardada,
44. Preta e dourada, por ele usada.
45. Cores da escola Joaquim Murtinho a brilhar,
46. Cores que sempre o fariam lembrar.
47. Sempre que essa combinação o olhar alcançar,
48. A memória de Joaquim voltará a pulsar.
49. Anginha dormia farta de dias vividos,
50. E sua despedida parecia cumprir tempos cumpridos.
51. Mas a morte de um jovem não encontra razão,
52. Pois rasga o tempo e perturba o coração.
53. Uma vida cheia de força e alegria,
54. Não deveria cessar naquele dia.
55. Ainda assim sua memória permanece viva na canção,
56. Guardada no coração do mosaico-cristão.
57. Joaquim — irmão que o tempo não apagou,
58. Pois no coração do mosaico-cristão, sua memória se eternizou.
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