
1. Nem todo amor da infância fala com voz,
2. Alguns apenas caminham ao lado de nós.
3. Entre dias simples, sem direção,
4. Surgiu uma pequena vida chamada Algodão.
5. Seus pelos eram brancos, leves como o ar,
6. Como nuvem que repousa sem pressa de passar.
7. Em sua cabeça havia um sinal singular,
8. Um círculo escuro fácil de lembrar.
9. Na casa onde pouco se sabia cuidar,
10. Sua presença aprendeu sozinha a se firmar.
11. Pensaram ser macho, sem muita precisão,
12. E assim permaneceu: Algodão.
13. O nome nasceu da cor que trazia,
14. Branco suave que à infância sorria.
15. E o mosaico-cristão, ainda em formação,
16. Aprendeu com ela o valor da companhia e afeição.
17. Mas o tempo, discreto em sua ação,
18. Trouxe mudança sem explicação.
19. Algodão cresceu — e então engordou,
20. Mas não era peso: a vida nela brotou.
21. Dentro dela, novos sinais floresceram,
22. E pequenos seres ao mundo vieram.
23. Então se revelou o que antes não se via,
24. Algodão era fêmea — e vida trazia.
25. Muitos vieram depois, em tempos diversos,
26. E todos tiveram valor em nossos universos.
27. Pois nenhum cuidado é pequeno ou vão,
28. Quando há vida entregue à nossa atenção.
29. Se alguns, na memória, não ficariam,
30. Não foi falha deles — mas de nós, que não lhes demos o valor que mereciam.
31. Ainda assim, entre todos que vieram e foram,
32. Alguns, como Algodão, mais fundo se ancoram.
33. Veio o tempo de partir e mudar de lugar,
34. E a casa precisou seus passos afastar.
35. Algodão ficou — não seguiu o caminho,
36. E ali começou um silêncio sozinho.
37. Mas dias depois, o reencontro aconteceu,
38. E um último instante entre eles floresceu.
39. Do telhado, ela observava com calma o chão,
40. Como quem reconhece, mas não segue a direção.
41. Houve um toque, uma última carícia ofertada,
42. Um adeus sem palavras, mas cheio de jornada.
43. E então cada um seguiu seu caminho traçado.
44. E Algodão não mais foi vista ao nosso lado.
45. O mosaico-cristão não viu seu descanso final,
46. Mas guardou sua presença como algo essencial.
47. Porque há vidas simples, sem voz ou razão,
48. Que ainda assim moldam o nosso coração.
49. Algodão não foi apenas um animal de estimação,
50. Foi parte viva da infância em formação.
51. E mesmo sem ver seu último dia,
52. Sua memória permanece em companhia.
53. Porque há encontros que o tempo não desfaz,
54. Mesmo quando a vida nos leva para trás.
55. Algodão — pequena, silenciosa apenas com seu miado
56. Deixou em nós, o seu legado.
Mín. 14° Máx. 21°