7.1. O equívoco religioso.
Ora, diante de tudo que foi exposto nos capítulos anteriores deste artigo, uma pergunta surge naturalmente: se estes textos são tão claros, por que as comunidades religiosas que afirmam se inspirar nas Escrituras não ensinam e não orientam a prática dos hábitos alimentares que agradam a Deus?
É verdade que há líderes religiosos equivocados no entendimento das Escrituras. Porém, infelizmente, há também aqueles que conhecem o texto, mas preferem moldá-lo segundo seus próprios interesses. Ainda assim, é importante compreendermos quais diretrizes teológicas sustentam tais posições.
Por isso, nos próximos tópicos, examinaremos como as principais tradições religiosas interpretam os mandamentos alimentares estudados até aqui.
7.2. O que dizem os judeus.
Em geral, os judeus entendem que a Lei foi dada apenas a Israel. Por isso, ensinam que shabat, alimentação correta e outros mandamentos são responsabilidade exclusiva do povo judeu, enquanto as outras nações devem guardar apenas princípios morais básicos e reconhecer o Deus de Israel.
Essa compreensão cria uma separação entre judeus e gentios: de um lado, um povo chamado a viver plenamente os mandamentos; de outro, nações que não precisariam se consagrar a Yhwh nem guardar sua instrução.
Na prática, isso leva à ideia de que o gentio pode se aproximar de Deus sem obedecer aos mesmos mandamentos, como se existissem dois níveis de povo diante do Criador — um mais próximo e outro mais distante. Este artigo propõe justamente o contrário: que Yhwh chama todas as nações à mesma fidelidade.
7.3. Cristãos católicos.
A Igreja Católica entende que, depois da morte de Yeshua, ela passou a ser a representante do Reino de Deus na Terra. Assim, acredita que suas lideranças e concílios podem definir quais leis devem ser guardadas em cada época. Por isso, para o catolicismo, a Lei e os mandamentos de Deus — incluindo o regime alimentar, o dia de guarda e outras instruções — só têm valor se forem confirmados pela própria Igreja.
Dessa forma, a obediência deixa de estar diretamente ligada ao texto das Escrituras e passa a depender das decisões institucionais da Igreja.
7.4. Cristãos protestantes.
O cristianismo protestante surgiu como tentativa de reformar o que seus líderes entendiam estar corrompido no cristianismo católico. Contudo, embora tenham rejeitado a autoridade do papa e dos concílios, muitos mantiveram fundamentos herdados do próprio catolicismo.
Assim, grande parte das igrejas protestantes adota a compreensão de que a Lei de Deus foi anulada no madeiro, ou que foi destinada apenas a Israel. Como consequência, ignoram os mandamentos referentes à alimentação, ao shabat e a outras instruções da Torá.
Curiosamente, ao mesmo tempo em que rejeitam mandamentos claros das Escrituras, muitas denominações criaram novas proibições que não estão na Lei, estabelecendo regras próprias sobre costumes e alimentos.
7.5. Adventistas.
Entre os cristãos, os adventistas do sétimo dia e movimentos derivados das tradições mileritas compreendem que Noaḥ já conhecia a diferença entre animais limpos e imundos antes mesmo de Mosheh. Para eles, esse fato demonstra que a alimentação correta não pode ser entendida como um mandamento exclusivo aos judeus, mas como uma instrução dada à humanidade desde os primórdios.
Por essa razão, esses grupos se esforçam para seguir os princípios alimentares de Vayikra, abstendo-se de animais considerados imundos. No entanto, por causa de traduções imprecisas a respeito do chalav, continuam misturando leite e carne — prática que, como vimos, os afasta do mandamento de Deus, levando-os a pecar por falta de conhecimento.
7.6. Etíopes.
Os etíopes preservam a alimentação kosher por razões históricas e identitárias. Segundo sua tradição, a rainha de Sabá uniu-se ao rei Shelomo, e dessa linhagem teria nascido o herdeiro do trono etíope. Assim, muitos etíopes veem sua nação como ligada à herança de Israel.
Por esse motivo, tanto judeus etíopes quanto cristãos etíopes que reconhecem Yeshua como Mashiach mantêm diversas práticas da Torá, incluindo o regime alimentar. Ainda assim, como ocorre entre os adventistas, permanece a mistura entre leite e carne, resultado das traduções distorcidas ao longo dos séculos.
7.7. Muçulmanos.
Os muçulmanos também evitam a alimentação de animais considerados impuros. Eles creem que as Escrituras hebraicas preservam parte verdadeira da revelação divina e que todo fiel deve buscar obedecer à Lei de Deus. Por isso, não consomem porco nem outros animais proibidos nas Escrituras.
Contudo, sua tradição não distingue a proibição do chalav, permitindo a mistura entre carne e leite. Assim, embora preservem parte das instruções alimentares, ainda não seguem plenamente o padrão revelado por Yhwh em sua Torá.
7.8. A réplica.
Como vimos, há pessoas que rejeitam conscientemente a verdade. Com respeito a estas, pouco há a fazer, senão orar para que sejam tocadas pelo espírito de Deus. Entretanto, há muitos que vivem no erro acreditando estar no caminho correto. A estes, este artigo é dedicado.
Aos irmãos católicos que creem que os concílios da Igreja possuem autoridade superior à Lei de Deus, a revisão dessa compreensão exige estudo mais amplo, o que não abordaremos aqui.
Mas àqueles que entendem que a Lei é apenas para Israel, ou que os seguidores de Yeshua devem guardar apenas as Escrituras gregas, dedicaremos os próximos capítulos. Pois muitos se apoiam em textos específicos para defender tais posições.
Será que essas passagens são realmente compreendidas em seu contexto original? É isso que examinaremos a seguir.











